A uma semana do desfile oficial na Marquês de Sapucaí, o coração de Quitéria Chagas, 45, já bate no compasso do agogô de quatro bocas, marca registrada da Sinfônica do Samba.
Veterana, com 26 anos de Carnaval, a rainha de bateria do Império Serrano carrega mais do que a responsabilidade de defender o pavilhão da Serrinha; ela personifica o rompimento de barreiras que começou quando ainda era passista e questionava por que mulheres retintas não ocupavam o posto de majestade nas agremiações.
À CNN Brasil, a atriz e psicóloga abre o jogo sobre sua preparação física e emocional, a recente mudança em sua fantasia a pedido da escritora Conceição Evaristo — enredo da escola em 2026 — e as vitórias simbólicas contra o preconceito ao longo de sua trajetória.
O “efeito” Conceição e a força da ancestralidade
Neste ano, o desfile da verde e branca ganha um contorno espiritual e literário em homenagem a Conceição Evaristo, imortal da Academia Mineira de Letras e um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea. Segundo Quitéria, a conexão com a escritora foi tão intensa que alterou planos já traçados para a Avenida.
“A dona Conceição fez uma exigência para a escola: tive que mudar a minha fantasia há apenas duas semanas. Ela queria que eu representasse a entidade dela”, revela.
“Para a escola acatar isso de última hora foi algo muito sério, inclusive espiritualmente. É uma pressão e uma responsabilidade imensa, mas é, sobretudo, uma honra sentir essa energia dela vibrando na bateria”, acrescenta.
Para a rainha, Evaristo representa a imortalidade da mulher preta e a fusão com as raízes do Império, remetendo a baluartes como Dona Ivone Lara (1921-2018) e Tia Eulália (1908-2005). “Nossas lutas se espelham. Dona Ivone sofreu demais por ser uma mulher preta letrada em sua época. A Conceição traz agora essa vontade da comunidade de mergulhar na leitura e na própria história”, afirma.

Além da estética: preparação e fé
Longe dos clichês de “corpo perfeito”, Quitéria afirma ter se libertado das pressões externas, adotando uma disciplina de atleta focada na performance e na prevenção de lesões. “No dia do desfile, meu foco é a concentração. Tenho pânico de atrasos”, brinca. “Chego cedo para acolher os fãs, atender a imprensa e ter o meu tempo sagrado com a bateria”.
Outro pilar inegociável da rainha é o seu axé. Quitéria não pisa na passarela sem o amparo de suas crenças. “Tenho a minha reza com Deus e minhas entidades. Meu pai de santo anda ao meu lado, não abro mão disso por nada”, pontua.
O “pacto da branquitude” e a política da ocupação
Sem desviar de temas sensíveis, Chagas recorda que o final dos anos 1990 marcou um período de exclusão para a pretitude no Carnaval. Nesse período, o cargo de rainha passou a ser comercializado, e as passistas da comunidade foram escanteadas.
“Eu perguntava por que tínhamos que ensinar mulheres brancas e ricas a sambar se nós não podíamos estar ali? Na época, produtores diziam que meu perfil só servia para papéis de escravizada ou doméstica. Eu atirei no escuro e acertei o alvo, mas foi estratégico”, recorda a artista que alçou a carreira de atriz, impulsionada por um convite de Manoel Carlos.
Mesmo com o sucesso midiático e a trajetória artística nas telinhas, Chagas afirma que o mercado ainda resiste em dar o devido valor às artistas do samba durante o ano inteiro.
“Existe um ‘pacto da branquitude’. Querem ditar quem é importante na festa que o preto criou. É bonito fazer pauta contra a discriminação no 20 de novembro, mas nós existimos o ano inteiro. Sou formada, sou doula, moro fora e ainda sinto essa restrição. Se eu viralizo, cadê a capa da revista? Cadê o cachê igualitário?”, questiona.
O corpo que escreve a própria história
Hoje, Quitéria encara o Carnaval não apenas como festa, mas como um ato político. Entre o luto recente pela perda do marido, os desafios da maternidade e a rotina dividida entre o Brasil e a Itália, ela encontra no terreiro do Império Serrano o seu eixo de equilíbrio.
Ao ser questionada sobre o que ainda lhe provoca o “frio na barriga” após três décadas, a resposta transcende o brilho das luzes.
“É a vibração da ancestralidade. É a batida da Sinfônica, o toque do agogô. É uma tríade de energia entre a bateria, a escola e o público. Ali, eu saio de mim. O corpo fala sozinho e conta a nossa história. É mágico”, conclui.