O avanço da cigarrinha-do-milho nas áreas de segunda safra tem colocado produtores em estado de alerta em diversas regiões do país. Impulsionada pelas altas temperaturas, pela sucessão de lavouras de soja e milho e pela presença de plantas voluntárias, a praga encontra condições ideais para se multiplicar e pode provocar prejuízos expressivos à produtividade.
O sistema soja–milho segue como principal modelo produtivo do cereal no Brasil. Conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), aproximadamente 75% do milho produzido no país é oriundo da segunda safra, cultivada logo após a colheita da soja, sobretudo nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Embora esse modelo garanta eficiência e escala, ele também amplia o tempo de permanência da cultura no campo, favorecendo a continuidade do ciclo de pragas.
De acordo com Alziro Pozzi Neto, engenheiro agrônomo e especialista em Desenvolvimento de Mercado da Ourofino Agrociência, o milho safrinha já inicia seu ciclo sob forte pressão. “A população da cigarrinha cresce desde o começo do verão, estimulada pelo clima quente e pela oferta constante de plantas hospedeiras. Quando o plantio ocorre fora da janela ideal, o risco é ainda maior, pois as plantas jovens ficam expostas a uma população já elevada da praga”, explica.
Clima quente acelera ciclo da praga
As condições climáticas típicas do verão brasileiro contribuem diretamente para o aumento da população da cigarrinha. Temperaturas entre 26 °C e 32 °C reduzem o ciclo biológico do inseto, permitindo que uma geração seja completada em cerca de 24 dias. Esse desenvolvimento acelerado de ovos e ninfas favorece explosões populacionais, especialmente entre os meses de outubro e março.
Além do calor, períodos de estiagem intercalados com altas temperaturas — cenário frequente em importantes polos produtores — ampliam a sobrevivência e a dispersão do inseto. Outro fator determinante é a chamada “ponte verde”, caracterizada pela sucessão contínua de lavouras de milho safra e safrinha, o que garante alimento e locais de postura durante praticamente todo o ano.
A presença de plantas voluntárias de milho, conhecidas como “tigueras”, em áreas de soja ou no intervalo entre safras também agrava a situação. Essas plantas funcionam como abrigo tanto para a cigarrinha quanto para os patógenos associados à praga, mantendo o problema ativo mesmo fora do período principal de cultivo.
Danos vão além da sucção de seiva
Atualmente considerada a principal ameaça fitossanitária do milho no Brasil, a cigarrinha-do-milho causa danos significativos não apenas pela alimentação na planta, mas principalmente pela transmissão de molicutes e vírus responsáveis pelos enfezamentos pálido e vermelho.
Essas doenças comprometem o sistema vascular da planta, prejudicando o transporte de nutrientes. Entre os sintomas estão o encurtamento dos entrenós, espigas deformadas, folhas com coloração amarelada ou avermelhada e, nos casos mais graves, acamamento das plantas.
Pesquisas da Embrapa apontam que, em áreas sem manejo adequado, as perdas podem ultrapassar 70% da produtividade. Já dados do Sindiveg indicam que a incidência da praga cresceu 177% nos últimos dois anos, reforçando a necessidade de estratégias preventivas mais rigorosas.
Monitoramento precoce é fundamental
Segundo especialistas, o aumento da população da cigarrinha ao final do ciclo da safra de verão gera pressão imediata sobre as plantas recém-emergidas do milho safrinha. Por isso, o monitoramento deve começar logo após a emergência.
A recomendação técnica é utilizar armadilhas adesivas amarelas para acompanhar a presença do inseto na área e intensificar as ações de manejo do estádio inicial até o V6, fase considerada mais sensível à infecção pelos agentes causadores dos enfezamentos.
Diante do cenário de clima favorável e sucessão contínua de cultivos, o planejamento antecipado e o manejo integrado tornam-se decisivos para preservar o potencial produtivo do milho safrinha e reduzir o impacto econômico nas propriedades rurais.