A manhã desta quinta-feira (26) foi marcada por novos desdobramentos da Operação Lamaçal, conduzida pela Polícia Federal, que investiga supostos desvios de recursos federais destinados ao enfrentamento das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio de 2024.
O principal alvo da segunda fase da operação é o ex-prefeito de Lajeado e ex-secretário estadual de Desenvolvimento Urbano, Marcelo Caumo, preso temporariamente por determinação do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. O mandado prevê detenção inicial de cinco dias, prorrogáveis por igual período.
Além dele, uma empresária foi presa e uma vereadora de Encantado foi afastada cautelarmente do cargo.
O contexto: enchentes históricas e bilhões em prejuízos no Vale do Taquari

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As enchentes de maio de 2024 ficaram entre as maiores tragédias climáticas da história recente do Rio Grande do Sul. O transbordamento do Rio Taquari atingiu em cheio municípios do Vale do Taquari, como Lajeado, Encantado e Muçum, provocando destruição em bairros inteiros, colapso na infraestrutura urbana e centenas de famílias desalojadas.
Lajeado, polo econômico e logístico da região, teve escolas transformadas em abrigos, hospitais operando sob emergência e serviços básicos interrompidos por dias. O cenário de calamidade pública justificou o repasse emergencial de verbas federais por meio do Fundo Nacional de Assistência Social, destinadas a ações de assistência social, acolhimento psicológico, transporte e suporte educacional.
É justamente sobre a aplicação desses recursos que recaem as suspeitas.
Indícios de direcionamento e sobrepreço em contratos emergenciais
Segundo a investigação, três processos de contratação realizados pela Prefeitura de Lajeado durante o período de calamidade apresentam indícios de irregularidades graves.
Auditorias da Controladoria-Geral da União apontaram que:
- As empresas contratadas pertenciam a um mesmo grupo econômico;
- Não foi comprovada a escolha da proposta mais vantajosa;
- Os valores pagos estariam acima dos praticados no mercado;
- Os contratos somam aproximadamente R$ 120 milhões.
As contratações ocorreram por dispensa de licitação — instrumento legal previsto em situações de emergência —, mas a PF sustenta que houve possível direcionamento prévio, o que descaracterizaria a legalidade do procedimento.
Relação anterior com empresa investigada e dinheiro em espécie
Outro ponto considerado sensível pela investigação é a relação profissional anterior de Marcelo Caumo com uma das empresas beneficiadas. Antes de assumir o Executivo municipal, ele teria atuado como advogado de uma das contratadas.
Na primeira fase da operação, realizada em novembro de 2025, foram apreendidos R$ 411 mil em espécie em um cofre localizado em escritório ligado ao ex-prefeito. A origem do valor segue sob apuração.
De acordo com o delegado responsável pelo caso, as prisões temporárias foram solicitadas para evitar destruição de provas e possível combinação de versões entre investigados, após a identificação de mensagens que indicariam risco à instrução processual.
Operação atinge oito cidades gaúchas



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Ao todo, foram cumpridos:
- 20 mandados de busca e apreensão
- 2 mandados de prisão temporária
As diligências ocorreram em oito municípios do Rio Grande do Sul: Lajeado, Encantado, Muçum, Garibaldi, Salvador do Sul, Fazenda Vilanova, Novo Hamburgo e Porto Alegre.
A Justiça também determinou:
- Bloqueio de ativos financeiros de até R$ 5 milhões;
- Sequestro de veículos vinculados aos investigados.
Impactos políticos e institucionais
Marcelo Caumo havia deixado o cargo no governo estadual poucos dias após a primeira fase da operação, durante a gestão de Eduardo Leite. Desde então, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano enfrenta instabilidade administrativa.
No âmbito municipal, o caso reacende o debate sobre transparência na aplicação de recursos emergenciais. Em cidades que enfrentaram perdas humanas e materiais expressivas, a suspeita de desvio de verbas destinadas à assistência social provoca forte repercussão pública.
Moradores atingidos pelas enchentes relatam que a reconstrução ainda não foi concluída em diversos bairros, especialmente nas áreas ribeirinhas mais vulneráveis.
Quais crimes podem ser imputados?
Os investigados poderão responder, conforme o avanço do inquérito, por:
- Desvio de rendas públicas;
- Fraude em licitação;
- Corrupção ativa e passiva;
- Lavagem de dinheiro;
- Associação criminosa.
O ex-prefeito deve prestar depoimento nos próximos dias e poderá ser encaminhado ao presídio estadual de Lajeado enquanto durarem as medidas cautelares.
O que esperar dos próximos capítulos?
A segunda fase da Operação Lamaçal indica que a investigação ganhou robustez após análise de materiais apreendidos anteriormente. A expectativa é que novos documentos, dados bancários e dispositivos eletrônicos aprofundem o rastreamento do fluxo financeiro dos contratos sob suspeita.
Para o Vale do Taquari, a apuração representa mais que um processo judicial: trata-se de esclarecer se recursos destinados à reconstrução após uma das maiores tragédias ambientais do Estado foram utilizados de forma correta ou desviados em meio ao sofrimento coletivo.