Após semanas de tensão crescente entre Estados Unidos e Irã, os dois países começaram a retomar a diplomacia, a fim de evitar uma escalada que possa envolver um conflito militar.
Autoridades das duas nações devem se reunir nesta sexta-feira (6) em Omã para iniciar negociações. Segundo apuração da CNN, diversos países tentam mediar a situação, incluindo Catar, Turquia e Egito.
De toda forma, há incerteza sobre se o Irã estaria disposto a cumprir condições estabelecidas pelos EUA para se chegar a um acordo.
O que os EUA querem no Irã?
A CNN Brasil conversou com especialistas para entender os objetivos dos Estados Unidos com o Irã — e quão longe o governo Trump poderia ir para alcançá-los.
Thiago de Aragão, pesquisador e CEO da Arko Internacional, afirma que os EUA buscam, primariamente, três pontos:
- impedir que o Irã se torne uma potência nuclear militar
- limitar o raio de ação regional do Irã por meio de seus proxies (grupos armados apoiados e financiados pelo regime)
- garantir a segurança de aliados e rotas estratégicas de energia, sem se prender a uma guerra aberta e longa
Tendo isso em vista, Sidney Leite, professor da Universidade Rio Branco, pontua que está claro que os EUA não querem apenas um “acordo técnico”, mas conter o Irã como potência regional hostil aos seus interesses e de seus aliados.
Ele destaca que o governo Trump também deve negociar sobre o programa iraniano de mísseis balísticos — um dos mais poderosos do Oriente Médio.
Leite ressalta que os EUA veem o Irã como um “ator desestabilizador” da região devido ao apoio a grupos como o Hezbollah, milícias no Iraque e os Houthis no Iêmen.
“O objetivo americano é reduzir a capacidade do Irã de projetar poder regionalmente e dessa forma, proteger aliados estratégicos, em especial, Israel e a Arábia Saudita que veem o Irã como ameaça existencial ou estratégica”, comenta.

De toda forma, o regime de Ali Khamenei rejeitou algumas dessas exigências anteriormente, alegando que seriam violações à sua soberania.
Duas autoridades iranianas destacaram à agência de notícias Reuters que os maiores obstáculos nas negociações seriam o programa de mísseis balísticos e o fim do enriquecimento de urânio.
Silvio Cascione, analista político e diretor da Eurasia Group no Brasil, pontua que, para que os EUA consigam impedir que o Irã continue com o programa nuclear, a negociação deve exigir que o país abra mão dos estoques de urânio enriquecido e se comprometa com uma política de zero enriquecimento para o futuro.
Quão longe os EUA iriam para conquistar seus objetivos?
Cascione avalia que há uma “oportunidade” para os americanos, pontuando que o regime iraniano está “vulnerável, enfraquecido e com capacidade baixa de defesa”.
Assim, caso o país não se comprometa a abandonar o programa nuclear, ele ressalta que isso daria força para segmentos que defendem um ataque incisivo, que pudesse desestabilizar o regime dos aiatolás e fomentar uma troca de liderança.
Dessa forma, os três especialistas consultados pela reportagem acham possível que os Estados Unidos realizem um ataque contra o Irã, dependendo do rumo das negociações.
Ao mesmo tempo, a avaliação é que essa ação se limitaria a ataques calculados e pontuais, em vez de uma ação prolongada e invasão por terra, visto o grande custo, o risco de uma guerra regional e a grande capacidade militar do Irã.
“Isso pode assumir a forma de um ataque único de grande impacto, focado em algumas instalações críticas, com narrativa de ‘medida cirúrgica para impedir bomba’, ou de uma mini campanha aérea de alguns dias ou semanas, atingindo também bases da Guarda Revolucionária, centros de comando e infraestrutura de mísseis”, pondera Thiago de Aragão.
“O limite é sempre tentar evitar uma espiral que leve a fechamento prolongado de rotas de petróleo, ataques maciços de mísseis contra Israel e bases americanas, e eventual necessidade de mobilização terrestre”, comenta.
EUA ficariam “satisfeitos” com acordo nuclear?
Por mais que o governo de Donald Trump tenha alguns pontos que serão reivindicados nas negociações, o principal deles é a questão do programa nuclear.
Thiago de Aragão afirma que não é necessária uma mudança de regime no Irã para que os Estados Unidos considerem um acordo aceitável do ponto de vista estratégico.
Na avaliação do especialista, se houver um “acordo robusto” que congele o programa nuclear em “níveis baixos”, com inspeções fortes e mecanismos de verificação, isso já poderia ser entendido como um avanço importante.
“A lógica é pragmática: é melhor conviver com um regime hostil, mas contido, do que desencadear uma guerra de grande escala com resultado incerto”, comenta.
Silvio Cascione concorda que, por mais que haja uma oportunidade de ataque, que poderia aumentar a pressão contra um regime enfraquecido, os EUA podem ponderar que o risco associado a isso não valeria a pena.
“Se o Irã fecha, de fato, um acordo sobre esses pontos que são objetivos de primeira ordem para os Estados Unidos, é possível que nessa relação de risco-retorno os Estados Unidos acabem não se engajando em um ataque para mudança de regime”, destaca.
Sidney Leite, por sua vez, avalia que os Estados Unidos buscam um acordo mais amplo, que leve em consideração os outros pontos de atrito apontados anteriormente.
“Na visão trumpista, apenas um acordo que elimine definitivamente a capacidade nuclear, limite mísseis de longo alcance e reduza apoio a grupos armados [é satisfatório]”, diz.
“Todavia, mesmo assim, o Irã continuaria sendo visto com desconfiança”, conclui.