O avanço do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia voltou a colocar o setor leiteiro brasileiro em estado de atenção. Após a aprovação do texto preliminar na Câmara dos Deputados, a proposta agora segue para análise no Senado Federal, etapa considerada decisiva para o futuro da produção nacional.
No Rio Grande do Sul — um dos principais polos leiteiros do país — a preocupação é ainda maior. Em Porto Alegre, associados do Sindilat discutiram os possíveis impactos do tratado e avaliaram que o leite pode acabar sendo utilizado como moeda de troca nas negociações internacionais.
Por que o acordo preocupa o setor leiteiro?
O tratado entre os blocos prevê a redução gradual das tarifas de importação ao longo de até 18 anos, dependendo do produto. Na prática, isso pode facilitar a entrada de derivados lácteos europeus no mercado brasileiro, como queijos e leite em pó, muitas vezes produzidos com alto subsídio governamental.
Segundo o secretário-executivo do Sindilat, Darlan Palharini, embora o acordo possa ampliar o comércio exterior e abrir novas oportunidades para diversos segmentos, é fundamental garantir proteção a setores estratégicos, como o leite. A defesa é de que o Brasil preserve sua autonomia alimentar e assegure condições mínimas de competitividade aos produtores nacionais.
A Europa possui forte tradição e estrutura consolidada na produção de lácteos, com alto nível de mecanização, tecnologia e incentivos públicos. Já o Brasil, apesar de avanços, ainda enfrenta gargalos estruturais, como custo elevado de insumos, logística complexa e carga tributária.
O peso do leite na economia do Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul está entre os maiores produtores de leite do país. Regiões como o Alto Uruguai, Noroeste e Serra Gaúcha concentram milhares de pequenas e médias propriedades familiares que dependem diretamente da atividade.
Em muitos municípios, o leite é a principal fonte de renda no campo. Diferente de culturas sazonais, a pecuária leiteira garante fluxo financeiro mensal, o que sustenta o comércio local, escolas, cooperativas e toda a cadeia de serviços.
Qualquer desequilíbrio competitivo pode gerar:
- Redução no preço pago ao produtor
- Desestímulo à atividade
- Êxodo rural
- Impacto direto na arrecadação municipal
Nos últimos anos, o setor já enfrentou crises provocadas pela importação de leite em pó de países vizinhos do Mercosul, como Argentina e Uruguai. A ampliação do comércio com a União Europeia é vista como um novo desafio, potencialmente mais complexo.
Histórico de dificuldades recentes
O setor leiteiro brasileiro passou por momentos críticos nos últimos anos, especialmente durante oscilações cambiais e aumento expressivo nos custos de produção — como ração, energia elétrica e combustíveis.
Em diversas regiões do Rio Grande do Sul, produtores reduziram rebanhos ou abandonaram a atividade diante da baixa margem de lucro. A possível ampliação da concorrência internacional reacende o temor de um novo ciclo de retração.
Especialistas alertam que, sem políticas de compensação e salvaguardas comerciais, a competição pode se tornar desigual, favorecendo produtos importados em detrimento da produção nacional.
O que o setor defende
Representantes da cadeia produtiva defendem que o governo federal estabeleça mecanismos de proteção, como:
- Salvaguardas temporárias para produtos sensíveis
- Cotas de importação controladas
- Programas de incentivo à modernização da produção
- Linhas de crédito com juros reduzidos
- Política de garantia de preços mínimos
A ideia não é impedir o comércio internacional, mas garantir que ele ocorra em condições equilibradas.
Além disso, entidades ressaltam que o leite é um alimento básico na mesa dos brasileiros e que a segurança alimentar deve ser considerada um tema estratégico nacional.
Impactos para o consumidor
Embora, em um primeiro momento, a entrada de produtos importados possa gerar preços mais baixos nas prateleiras, o efeito de longo prazo preocupa.
Caso haja enfraquecimento da produção interna, o Brasil pode se tornar mais dependente do mercado externo, ficando vulnerável a oscilações cambiais e crises internacionais.
Especialistas apontam que manter uma cadeia produtiva forte é essencial para estabilidade de preços, geração de empregos e desenvolvimento regional.
Próximos passos no Senado
Com o texto aprovado na Câmara, o debate agora segue no Senado Federal. O setor produtivo deve intensificar a mobilização junto aos parlamentares para incluir mecanismos de proteção ao leite brasileiro antes da ratificação definitiva do acordo.
No Rio Grande do Sul, lideranças rurais acompanham o andamento da pauta com atenção redobrada, considerando que milhares de famílias dependem diretamente da atividade leiteira.
Com informaçoes: Folha Agrícola com informaçòes do Sindilat