Como funciona o sistema de poder no Irã?


Os Estados Unidos estão considerando novos ataques militares contra a República Islâmica do Irã devido à repressão violenta de protestos antigovernamentais.

A complexidade do sistema de governo do Irã, a natureza ideológica da base de apoio e o poder da Guarda Revolucionária dificultam a previsão da resiliência ou vulnerabilidade diante de um ataque externo, ou o que pode acontecer em seguida.

Por que o Irã tem um líder supremo?

O sistema político do Irã é baseado na teoria do vilayat-e faqih (“governo do jurista”), que sustenta que, até o retorno do 12º Imã muçulmano xiita, desaparecido no século IX, o poder na Terra deve ser exercido por um clérigo supremo.

O primeiro Líder Supremo, o aiatolá Ruhollah Khomeini, foi a figura paterna carismática da Revolução Islâmica de 1979, que desenvolveu o modelo de um clérigo acima de um governo eleito.

Seu sucessor, o aiatolá Ali Khamenei, consolidou esse papel desde que assumiu a liderança em 1989. Isso garantiu que ele mantivesse a palavra final em todas as principais decisões políticas e construiu um sistema de governo paralelo ao do governo eleito, composto por aliados.

Líder supremo do Irã Ali Khamenei em Teerã • 2/11/2022 Divulgação via REUTERS
Líder supremo do Irã Ali Khamenei em Teerã • 2/11/2022 Divulgação via REUTERS

A influência de Khamenei tem sido frequentemente exercida através do Conselho de Segurança Nacional, chefiado pelo conselheiro de longa data, Ali Larijani.

Outros conselheiros de Khamenei, incluindo o ex-ministro da Defesa Ali Shamkhani e o ex-ministro das Relações Exteriores Ali Akbar Velayati, também desempenharam papéis proeminentes.

Khamenei, de 86 anos, não nomeou um sucessor e não está claro quem o substituiria caso fosse morto ou deposto.

Seu filho, Mojtaba Khamenei, às vezes é visto como um possível candidato. O neto de seu antecessor, Hassan Khomeini, também foi considerado, assim como alguns clérigos mais antigos e de alta patente.

O Irã é uma teocracia?

O alto clero do Irã controla órgãos poderosos que estendem a influência por todo o sistema político.

A Assembleia de Peritos, composta por aiatolás de alto escalão eleitos a cada oito anos, é o órgão que nomeia o líder supremo. A Constituição também lhe confere o poder de questionar e até mesmo destituir um líder, mas isso nunca aconteceu.

O Conselho dos Guardiães, composto em metade por integrantes nomeados pelo líder e em metade pelo chefe do judiciário, pode vetar leis aprovadas pelo parlamento e desqualificar candidatos às eleições, um mandato que tem sido usado para bloquear potenciais críticos de Khamenei.

Outro órgão clerical, o Conselho de Discernimento, nomeado por Khamenei, resolve disputas entre o parlamento eleito e o Conselho dos Guardiães.

O Irã segue interpretações xiitas da lei islâmica sharia e os juízes também são clérigos, subordinados a um chefe do judiciário nomeado por Khamenei. O atual chefe, Gholamhossein Mohseni Ejei, foi sancionado por países ocidentais devido à violenta repressão a manifestantes em 2009, quando era ministro da inteligência.

Outros clérigos influentes incluem o chefe do Conselho de Discernimento e ex-chefe do judiciário, Sadiq Larijani, irmão de Ali Larijani; o integrante da Assembleia de Peritos e do Conselho de Discernimento, Mohsen Araki; e o líder da oração de sexta-feira em Teerã, Ahmad Khatami.

Contudo, nem todos os clérigos — mesmo os de alto escalão — são necessariamente apoiadores do sistema teocrático do Irã ou dos governantes atuais. Alguns foram dissidentes, outros, como o ex-presidente Mohammed Khatami, tentaram, sem sucesso, reformar e suavizar o sistema vigente.

Qual é o poder da Guarda Revolucionária?

Diferentemente das forças armadas comuns, que ficam subordinadas ao Ministério da Defesa em um governo eleito, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica responde diretamente ao Líder Supremo.

Formada logo após a revolução, a IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica) expandiu enormemente o papel na defesa do sistema islâmico durante a guerra de 1980 a 1988 com o Iraque, e atualmente é o ramo mais forte e bem equipado das forças armadas do Irã.

Ao longo das décadas, a Guarda Revolucionária estendeu a influência pelos mundos da política e dos negócios, ganhando poder tanto no país quanto no exterior.

Integrante armado da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã observa enquanto aguarda para participar de uma manifestação militar no centro de Teerã • Morteza Nikoubazl/NurPhoto via Getty Images
Integrante armado da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã observa enquanto aguarda para participar de uma manifestação militar no centro de Teerã • Morteza Nikoubazl/NurPhoto via Getty Images

A Força Quds, uma unidade de elite da Guarda Revolucionária, liderou a estratégia regional do Irã de apoio a grupos xiitas afiliados em todo o Oriente Médio, principalmente no Líbano e no Iraque.

Essa estratégia foi duramente atingida pelo assassinato do comandante da Força Quds, Qassem Soleimani, pelos EUA em um ataque aéreo no Iraque em 2020, e pela ofensiva de Israel contra o Hezbollah libanês na guerra de 2024.

A milícia Basij, uma força paramilitar de meio período sob o controle da Guarda Revolucionária, é frequentemente usada para reprimir protestos dentro do Irã.

Desde o início dos anos 2000, o poder econômico da Guarda Revolucionária cresceu à medida que sua empresa de construção, Khatam al-Anbiya, ganhou projetos no valor de bilhões de dólares no setor de petróleo e gás do Irã.

A natureza direcionada dos ataques israelenses contra comandantes seniores da Guarda Revolucionária no ano passado e contra líderes do Hezbollah em 2024 levantou questões sobre uma possível infiltração da inteligência ocidental nos escalões superiores do corpo militar.

No entanto, o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour, seu vice, Ahmad Vahidi, o chefe da Marinha da Guarda Revolucionária, Alireza Tangsiri, e o atual comandante da Força Quds, Esmail Ghaani, continuam sendo figuras poderosas.

O Irã também é uma democracia?

Os iranianos elegem um presidente e um parlamento para mandatos de quatro anos. O presidente nomeia um governo que administra as políticas diárias dentro dos parâmetros permitidos pelo Líder Supremo.

Durante os primeiros anos da República Islâmica, as votações atraíram participação em massa. No entanto, as restrições do Conselho dos Guardiães aos candidatos e o resultado contestado das eleições de 2009 minaram a confiança de muitos eleitores, enquanto o papel do Líder Supremo reduziu a autonomia dos órgãos eleitos.

O presidente Masoud Pezeshkian, considerado moderado, foi eleito em 2024 após um primeiro turno com cerca de 40% de participação e um segundo turno com a presença de aproximadamente metade do eleitorado. Ele derrotou Saeed Jalili, um leal a Khamenei e linha-dura antiocidental que permanece influente.

O presidente do parlamento desde 2020 é o ex-comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Baqer Qalibaf.



Source link

Mais recentes

PUBLICIDADE