Novo secretário-geral da ONU será escolhido em meio a desafios existenciais


O presidente do Chile, Gabriel Boric, ao lado do Brasil e do México, apresentou na semana passada a candidatura da ex-presidente chilena Michelle Bachelet para o cargo de secretária-geral da ONU (Organização das Nações Unidas).

O cargo é atualmente ocupado pelo português António Guterres. O sucessor será eleito no decorrer deste ano para um mandato de cinco anos, com início em 1º de janeiro de 2027.

Tradicionalmente, o cargo é rotativo entre regiões, e a próxima na lista é a América Latina.

Até o momento, dois candidatos foram formalmente indicados. Além de Bachelet, o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, também está na disputa.

A ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan, também foi declarada publicamente como possível candidata ao cargo.

Porém, muita coisa mudou na geopolítica desde a fundação da ONU. A organização enfrenta um cenário global cada vez mais volátil, marcado por crises crescentes que testam os limites da diplomacia multilateral e da resposta humanitária. E essa situação pode se tornar um desafio para o próximo secretário-geral.

Como funciona a ONU?

A ONU opera por meio de diversos órgãos, incluindo a Assembleia Geral, onde todos os 193 Estados integrantes têm representação igualitária para deliberar sobre questões globais, e o Conselho de Segurança, que tem a função de lidar com ameaças à paz internacional e pode autorizar sanções ou ações militares.

Reunião do Conselho de Segurança da ONU • 05/08/2025 REUTERS/Eduardo Munoz
Reunião do Conselho de Segurança da ONU • 05/08/2025 REUTERS/Eduardo Munoz

Outras áreas da ONU incluem a CIJ (Corte ou Tribunal Internacional de Justiça), com sede na cidade de Haia, na Holanda, que funciona como o braço judicial da organização. O Tribunal resolve disputas legais entre Estados e oferece pareceres consultivos sobre o direito internacional.

A ONU também supervisiona uma série de agências e programas especializados, como o Unicef, que defende os direitos das crianças, e a OMS (Organização Mundial da Saúde), que coordena os esforços internacionais em saúde pública. 

Além disso, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) foi criada em 1945 com o objetivo de promover a colaboração internacional por meio da educação, da ciência, da cultura e da comunicação.

Esses órgãos atuam em diferentes momentos e em diferentes questões. Atualmente, três deles ganharam destaque nos últimos anos:

  • A guerra na Ucrânia, que já dura três anos e continua a minar a Carta da ONU, com os ​​ataques russos causando um grande número de vítimas e deslocamentos;
  • O conflito entre facções militares rivais no Sudão, que se intensificou e se transformou em uma das piores crises humanitárias do mundo, deslocando milhões de pessoas e limitando severamente a distribuição de ajuda;
  • O conflito entre Israel e o Hamas, na sequência dos ataques de 7 de outubro de 2023, que destruiu Gaza e deixou os moradores em condições semelhantes à fome, o que levou a operações urgentes de ajuda humanitária da ONU em meio a um impasse político;

E quanto ao financiamento?

António Guterres disse aos Estados membros da ONU que a organização corre o risco de um “colapso financeiro iminente”, citando taxas não pagas e uma regra orçamentária que obriga o organismo global a devolver o dinheiro não gasto, conforme mostrou uma carta vista pela agência Reuters.

Guterres tem falado repetidamente sobre a crescente crise de liquidez da organização, mas este é o seu alerta mais contundente até agora, e surge em um momento em que os Estados Unidos, seu principal contribuinte, estão se afastando do multilateralismo em diversas frentes.

“A crise está se aprofundando, ameaçando a execução dos programas e correndo o risco de um colapso financeiro. E a situação se deteriorará ainda mais em um futuro próximo”, escreveu Guterres em uma carta aos embaixadores datada de 28 de janeiro.

Secretário-geral da ONU, António Guterres • 10/06/2025 REUTERS/Manon Cruz
Secretário-geral da ONU, António Guterres • 10/06/2025 REUTERS/Manon Cruz

Os EUA reduziram drasticamente o financiamento voluntário para agências da ONU e se recusaram a fazer pagamentos obrigatórios para os orçamentos regulares e de manutenção da paz.

Por conta dessa redução, a ONU será forçada a melhorar a eficiência e cortar custos, e irão reduzir em 25% o número de forças de paz em nove operações ao redor do mundo nos próximos meses, disseram altos funcionários em outubro de 2025.

Washington é o maior contribuinte para as operações de paz da ONU, respondendo por mais de 26% do financiamento, seguido pela China, que contribui com quase 24%. Esses pagamentos não são voluntários.

Os EUA já deviam US$ 1,5 bilhão antes do início do novo ano fiscal, em 1º de julho de 2025, afirmou um segundo funcionário da ONU. Washington agora também deve mais US$ 1,3 bilhão, elevando a dívida total para mais de US$ 2,8 bilhões

O EUA informou à ONU que farão um pagamento de 680 milhões de dólares em breve, disse um funcionário da organização. 

Em agosto de 2025, o presidente americano Donald Trump cancelou unilateralmente cerca de US$ 800 milhões em financiamento para operações de paz destinados a 2024 e 2025, de acordo com uma mensagem da administração Trump ao Congresso.

O gabinete de orçamento da Casa Branca também propôs eliminar o financiamento das missões de paz da ONU em 2026, citando fracassos nas operações no Mali, Líbano e República Democrática do Congo.

Pedidos de reforma das Nações Unidas

Diversos líderes pediram uma reforma das Nações Unidas e, em particular, do Conselho de Segurança composto por 15 integrantes. Eles argumentam que é injusto que os Estados Unidos, a Rússia, a China, a França e o Reino Unido fossem as únicas potências com poder de veto permanente.

Segundo Veronika Fikfak, professora de Direitos Humanos e Direito Internacional na Escola de Políticas Públicas da University College London, a tendência em direção a regimes autocráticos está afetando o funcionamento da ONU.

Alguns Estados membros rejeitam cada vez mais as instituições internacionais e buscam deliberadamente minar os processos das Nações Unidas, segundo Fikfak.

Outros desafios para o próximo secretário-geral incluem as novas tecnologias, a desinformação e a questão da manutenção da paz e da segurança em todo o mundo, diante da atuação de alguns Estados poderosos que minam as instituições internacionais, a democracia e o Estado de Direito.



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